” A música voltou a tocar, a tocar minha mente, a disparar meu coração, a deprimir minha alma. E nessa depressão eu implodo minha prisão, a prisão de felicidade, paz, estagnação. A depressão cala o Melhor em mim, e abre espaço para o Pior renascer. O Pior que ama o mundo e tudo que há nele. Aquele Pior que sentia o vento da madrugada enquanto observava, da varanda, a rua silenciosa e seus postes de luzes fracas, e que viajava na melodia dos passos solitários e distantes. Aquele Pior que se deliciava com o balançar da velha árvore, que parecia também sentir o vento como ele.
Agora eu volto a ver as imagens que ninguém vê, a sentir as sensações que o vento provoca e que ninguém jamais sentiu, a ouvir a Música por trás dos sons e das músicas. Eu quase havia me esquecido de como era a sensação, como era sentir a vida assim, sentir esse mundo. Respirar o ar, se sentir sozinho mesmo no meio de uma multidão, sentir saudade de momentos que ainda não viveu, sentir falta de todos que ainda não se foram, e dos que ainda nem vieram. Sentir o coração não cabendo dentro do peito, a falta de ar, o êxtase, tudo isso provocado por uma simples brisa fresca, ou por um som de guitarra, ou pelo silêncio da madrugada fria.
Estou com medo de encontrar meu antigo eu. Medo que o antigo destrua o novo. Existem coisas que eu não suportaria perder. E se o velho destruir o novo? E se não sobrar nada de Melhor? Mas eu também não posso e não quero evitar isso. Eu quero tentar, sempre. Talvez o Melhor se una ao Pior. Talvez seja possível não ser nem um nem outro, ou ser um e outro, ao mesmo tempo. Ou talvez a música simplesmente acabe.”





